15/10/2007 - |
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Amados,
na manhã chuvosa e fria que desafia a primavera, lembro de lutas, umas vãs, outras nem tanto. Lembro de palavras boas, destas que aquecem o coração.
Então, elas brotam do baú de guardados, desafiando o tempo, o frio, a incerta sina. Lá vão , dividindo-se com todos feito brilho de vaga-lume.Brilhar é preciso.
Uma semana feliz e produtiva para todos,
Aninha
“Irmãozinho, faça um canto das dores do teu martírio.
Se o amor se muda em ódio,o lodo se troca em lírio.
Lance fora esta tristeza, tire um verso do cansaço.
Mesmo com canoa boa, é preciso ter bom braço.”
(Aldir Blanc)
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14/10/2007 - A vocação para ser feliz |
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A VOCAÇÃO PARA SER FELIZ
Ando investigando, ultimamente, de onde me vem esta inefável, implacável, intangível e inquestionável vocação para ser feliz.Não digo que não lide quase sempre com dores várias, perdas, dúvidas, massacres, enfim, com toda a sorte de dificuldades costumeiras. Lido, sim, como qualquer um.Entretanto, lá pelos 15 anos, percebi que não persisto na dor. Antes, eu dizia isto de forma menos elegante: “- Não tenho saco pra sofrer.”Ando apurando o estilo, como se vê.Bom, pensa daqui, investiga dali, fui lembrando-me de certas cenas de minha infância. Imagino que elas estão na gênese desta minha vocação.Fui cercada, desde que cheguei a esta vida, de seres muito amorosos e amoráveis. Pai, mãe, avós, bisavós, tios e tias, cada um à sua maneira, acalentavam, alimentavam meu pequeno ser e minha alma faminta.
Quero falar hoje de meu pai, Reginaldo, de nome chamado. Regi, entre amigos e parentes. Sujeito assaz engraçado. Lembro que, quando criança, íamos à festas , minha mãe fazia as costumeiras recomendações sobre bom comportamento, incluindo-o. Nunca adiantava.Já chegava distribuindo sorrisos e piadas. Nunca vi alguém pra contar piada como ele. Até hoje. É sempre a alma de qualquer festa.Nós morávamos no Rio, longe ( na época era muito longe) de nossa gente que morava na roça ,num lugar antes sem progresso, conforto, transporte. Lugar chamado Morrinhos, entre duas cidades surgidas ao redor de usinas de açúcar: Carapebus e Quissamã. Região norte fluminense. A cidade grande mais próxima é Macaé.Hoje, tem a ponte; tem estrada, ônibus, carro.Tem até avião. Naqueles tempos de infância, anos 60 encantados, havia trem. De dois tipos: o noturno e o expresso. Eu adorava o expresso. Ia-se de dia. A viagem começava na magnífica Estação de Barão de Mauá. Mais bela, para mim, que as gares francesas. Chegar lá era uma aventura.Uma odisséia. Minha jovem e bela mãe, meu pai e seus três pirralhos, dos quais sou a mais velha. O mais novo, João, ia no colo. Eu e Ricardo, o do meio, íamos nos pendurando em barras de calça e saia , como dava.Minha mãe nos dava a mão para as difíceis travessias de ruas, entradas de ônibus.Nos acomodava. A meu pai cabia a tarefa natural de levar a mala. Não havia malinhas. Era uma mala só para todos. Coisa digna de ver-se. Parecíamos retirantes definitivos. A mala era portentosa.Lembro de meu pai resmungar, entre dentes. O que nunca entendi era que entremeava os resmungos com histórias, piadas, lições, durante todo o trajeto. Antes de embarcar, comprava-nos revistinhas . Para mim, sempre Luluzinha, revista de menina. Embarcados, sentados em infindáveis disputas por colos e janelas, ia ele nos mostrando os lugares pelo qual o trem passava. Nunca tive melhores aulas de geografia. Dizia o nome das estações. Havia uma, inesquecível, com nome de poeta:Casimiro de Abreu. Ele sempre recitava um pedacinho de Meus Oito Anos.Poeminha emblemático.Lá, comíamos bananas assadas e papai comprava mariola pra levar pra fazenda.Viagem de dia inteiro. Mala, banana, farnel. Éramos felizes.Chagávamos bem de noitinha. Cansados. Felizes. Mimados.Quando as férias acabavam, lá íamos rabugentos pra casa.A gente queira ficar pra sempre lá. Entre primos muitos, cana doce, carambola, comida de velho fogão à lenha, biscoito de polvilho que vovó fazia.Papai sempre achava que a mala tinha ficado mais pesada. Tinha mesmo.Vovó costuma enfiar por entre as roupas latas de goiabada cascão e de doce de batata doce feitos por ela em tacho de cobre e fogo de lenha.Ah! sabores perdidos.A volta era longa. Mas éramos felizes.Naqueles tempos difíceis, meu avô costumava mandar galinhas para melhorar a comidinha nossa de cada dia. Havia em nosso quintal de subúrbio um galinheiro sempre bem povoado graças aos cuidados de vovô.Outro dia, perguntei a papai como afinal as galinhas chegavam ao longínquo galinheiro. Eu, pequena, só me dava conta de que chegavam em um engradado. Meu pai riu e comoveu-se com minha pergunta e respondeu-me: de trem. Como de trem? Explicou então o feliz Regi:- seu avô punha as penosas num caixote e despachava na estação do Itaquira.- Ah! Tá bom. Agora, sim. Mas, como as levava até lá? - A cavalo, respondeu.-Hum...- E como chegavam ao galinheiro?- Eu ia pegar em Barão de Mauá.-Como se a gente morava tão longe?-Fácil, disse papai com voz de quem revive aventura. Seu avô telegrafava dizendo o dia em que as famosas galinhas chegariam.Eu ia esperar o trem em Barão de Mauá .Pegava o caixote, quase sempre com 12 , 15 penozinhas, e ia , com ele na cabeça,até a estação de trens do subúrbio que ficava ali perto.Quando chegava na estação perto de casa , saltava e lá ia caminhando e assoviando.Meu pai sempre adorou assoviar.- Era só um pouco mais difícil do que a mala, riu ele. Coisas assim e muitas outras como excursões familiares à Quinta da Boa Vista ou à Barra da Tijuca, com direito a arroz na panela , ovos cozidos, farofa, galinha frita, laranjas e bananas eram comuns. A gente não achava difícil. Era muito natural. Éramos felizes.Foi assim que desenvolvi esta vocação para a felicidade. Não importa o peso da mala. Importa levá-la. Não importa quão longa e dura a viagem. Importa viajar.É por estas outras que, aos 53 aninhos, chego à conclusão de que serei para sempre poeta, leitora, comedora de bananas, farofeira e feliz.
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