01/07/2008 - Frase do dia
 
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Amados,
bom dia.

Confesso: sempre fui rebelde.Por sina , escolha, diversão, convicção. Me recuso pela vida a fora a ser empurrada por problemas.Muito jovem ainda, decidi ser conduzida por meus sonhos . Não me arrenpendi até hoje.
Quando comecei a estudar Programação Neurolingüística, fiquei uma sonhadora fundamentada. Sonho, Visão de Futuro, Platão, Física Quântica, tudo nos leva pra longe do rebanho, para o território do Ser, do Único, do que somos, de quem escolhemos ser.
E, por falar nisto, vejam que bela a frase do dia.
A todos um dia de sonhos e realizações.
Beijos fraternos,Aninha, fada peregrina

"Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã."

(Victor Hugo)

 
 
30/06/2008 - frase do dia
 
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Amados, bom dia,


Minha porção cigarra sonhadoramente cantarolante, imersa em águas profundas , anda investigando, sorrateira, sempre, sempre coisas de muita monta. O sonho, por exemplo, é sempre sua matéria, o sonho presente, a vida presente.Minha porção cigarra ama Drummond, como se vê.
Uma verdade transitória que ela percebeu é o Sonho tem uma gramática própria, singular. Para configura-lo fenomenicamente é preciso que haja um sujeito.Um sujeito simples como de oração absoluta.Com um núcleo forte, denso, substantivo.É este núcleo na gramática do sonho o cerne do Ser.
Pensemos, hoje, na quântica importância para o sonho que o Sonhador mantenha bem adjetivado seu cerne.
A todos um dia feliz e produtivo,Aninha, fada peregrina

"Um homem é um sucesso se pula da cama pela manhã, vai dormir à noite e, nesse meio tempo, faz o que gosta." –

(Bob Dylan)

 
 
29/06/2008 - “ TUDO O MOVE É SAGRADO.”
 
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Na região onde moro, há uma belíssima cachoeira, a Cachoeira do Rio dos Pardos. Uma magnífica queda de cerda de 80 metros.

Eu e meu povo vamos lá com freqüência.É lugar belo, quase intocado , porque de difícil acesso.

Há alguns anos , no início do verão, recebemos uns amigos escotistas de

Florianópolis.Passeio obrigatório? A cachoeira.

Chegamos , com melancia, caiaque , cachorro e crianças.A festa completa.

O lago da cachoeira é grande .Lá, brincamos por algumas horas.

Ao lado da cachoeira há um precipício, uma subida íngreme que leva ao topo. Como é uma vista deslumbrante , lá fomos nós.

Temos o costume de andar na mata à moda escoteira: uma pessoa mais experiente vai à frente , com bastão , batendo levemente do lado.É uma norma de segurança.

Logo após , crianças ou adultos sem experiência de andar na mata . Seguindo-os , fechando a coluna , outro “ mateiro”.

Naquele dia, meu marido era o guia da coluna. Seguindo-o 5 crianças , um deles meu filho que na época tinha 12 anos.

Após as crianças, eu. Atrás de mim , crianças. Um chefe após elas. Adultos .Em seguida , um chefe mateiro, fechando a coluna.

Bom, eu não sou exatamente um modelo de agilidade.Mas me orgulho de subir por meu próprio esforço. No meio do percurso há uma pedra bem grande. Todos à minha frente , muito ágeis , já a tinham transposto. E la´fui eu . Para subir, como não tenho uma grande abertura de pernas, preciso apoiar-me com as mãos e ir me arrastando até subir.

No momento em que ia pousar minha mão direita sobre a pedra, ela foi parada pelo vulto luminoso de uma mão incorpórea, porém consistente.Caí sentada no carreiro . E ao levantar-me , desta vez cuidadosamente, vi no lugar certinho em que ia pousar minha mão uma jararaca enrodilhada. Assanhadíssima. Em fúria. Seis já haviam passado por ela , perturbando-lhe o sossego.

Com voz calma , que não sei bem até agora de onde busquei, avisei de sua presença. A voz mal saía de mim. Meu marido, com o bastão que trazia , tirou-a em segurança da trilha . Sem ferí-la , claro.

Amados, sei o que vi. A Mão que conteve meu gesto foi a mão de um Anjo. Nasci de novo. Longe como estávamos , não resistiria até a cidade.

Gosto de pensar que um Anjo compassivo me deu outra vida.Deste dia em diante, tenho procurado viver o mais decentemente possível. Além disso , minhas dúvidas intelectuais sobre a Divindade perderam todo o sentido.Não preciso acreditar. Como Jung , eu digo: Eu sei. Experimentei.Transpus o portal.

Relutei tempos em contar este evento epifânico. Sei que pode gerar panos pra manga. Mas um impulso quase incontrolável , uma forte intuição, se quiserem , me fez sentar um belo dia e fazê-lo.

Afinal, eu já não separo mais mesmo o profano e o sagrado em minha vida. “ TUDO O MOVE É SAGRADO.”



Beijos fraternos, Aninha, fada peregrina

 
 
28/06/2008 - Insofismavelmente é inverno
 
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Amados,

insofismavelmente é inverno.O céu anda cabisbaixo; as árvores sem fatiota; as gentes sem encanto.

Nos limites sul do império, o inverno é notório, notável. A vida se enche de cinzas. O frio é substantivo. Não há adjetivação possível de descrevê-lo para quem não o sentiu na pele, nos ossos , na alma.

Mas, como sempre se dá na humana aventura, há sutis focos de resistência. Os partidários do verão e da luz recusam-se a adormecer no inverno. Ficam alertas. Há, nos subterrâneos do mundo, encontros sutis, inesperados.

A pretexto de um quase nada, se faz um café, um sarau, almoço domingueiro, uma ida ao bar da moda. E, nítidos em suas diferenças, estes resistentes se reconhecem por atávicos sinais. Uma esperança aqui; uma opinião ali; mais adiante nas horas, um livro lido, um filme lembrado. E vão, assim, vencendo o frio e a solidão.

Muitas vezes, usam o tempo do inverno com moderada sabedoria para hibernar nas profundas cavernas de seus seres, em busca de saberem a si mesmos.Como todo Ser é um abismo, tecem lenta, pacientemente, pontes de cuidados entre si. Interligam-se. Bordam-se. Encontram-se.É assim que vencem a noite.

Aproveitam estes seres hibernais vagares para investigar o céu.Quem sabe em busca de presságios ; quem sabe em busca de sonhos como Thoreau. Aliás, Thoreau é quase santo padroeiro.Citado.Recitado. Ele e outros da nobre estirpe dos resistentes: Pessoa, Joyce, Luther King, José Régio, Jung. Tantos nomes de gente sem fama abundante, e de abundante alma.

Ouvi, um dia, de um destes secretos partidários do sol, que Jung havia se encantado tanto com a terra brasilis que andava pensando secretamente em reencarnar no Brasil.Ou quem sabe, virar Orixá. Eterna busca da luz e da beleza. Como diria Mestre Vinícius, a bênção São Jung, orixá dos oráculos, das almas partidas, da busca de sabedoria. A bênção Vinícius, de imortal cantoria.

Aproveito, então, sublimes ensinamentos espreitados, surrupiados e inverno-me. Vou passar o inverno meio cigarra, meio formiga, fazendo buscas, dançando;lendo hoje, escrevendo amanhã; cozinhando hoje, versejando amanhã; amar amando-me a cada dia. Quero transpor os portais do inverno-inverso sendo um eu melhor, partindo célere em busca de aventuras como antigos heróis .Salvar o mundo , salvando-me, em direção à era de calor e luz que chega um belo dia, em setembro, sorrateira, disfarçada em vôo de passarinho, nascimento de bezerrinho, sol azul , céu azulzinho.

Vou aprender dentro de mim a ser aprendiz mais feliz. Encolho-me.Recolho-me sem alarde.Medito.Quem vem junto? Dê-me o braço, o abraço , dê-me o verso e vamos viajar pelas solenes pradarias de neblinas rumo ao nítido dia de calor e luz.

Um inverno de fogos míticos e fogueiras vicejantes a todos.

Beijos, Aninha, fada peregrina


 
 
27/06/2008 - Frase do dia
 
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Amados,


em quase todas as peregrinações,ou treinamentos, palestras,coaching ou consultorias que realizo, esbarro em um rochedo muito já meu conhecido: a livrofobia, se me permitem o neologismo.
Inevitavelmente, sugiro que as pessoas leiam já que me percebo incapaz de acreditar na cultura de apostila e repasse. Neste momento sinto-me literalmente jogando porcos às pérolas.Nesta ordem mesmo. Ninguém aprende sem ser por si mesmo. Minha avó já sabia disto. Paulo Freire, Piaget e muitos outros só me confirmaram. Claro está que a experiência da leitura deve unir-se indelevelmente à da vida pura e simples; à vida sensorial. Não basta claro, ler sobre maçãs; é preciso comê-las, devorá-las, cheirá-las. Porém , digo-lhes que o ato de comer uma maçã ficou muito mais rico pra mim , quase ritualístico, depois de ter visto a bela tela com maçã e borboleta de Salvador Dali.
Talvez , e só talvez, minha paixão por livros e correlatos incendeie-me tanto que acabo convincente e,normalmente, uma alma executiva, supervisora, professora, operária se torna leitora e se salva. Em geral, pessoas as mais antenadas , com maior e mais experessivo conjunto de competências desenvolvido.
O que me faz lembrar da frase do dia.
Um dia feliz e produtivo a todos.
Beijos, Aninha, fada peregrina


" Livros são a melhor munição que encontrei para esta humana viagem."
( Montaigne)

 
 
26/06/2008 - frase do dia
 
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"Existe algo mais importante do que a lógica: a imaginação. Se a idéia é boa, a lógica deve ser jogada pela janela." (Alfred Hitchcock)

 
 
25/06/2008 - frase do dia
 
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Bom dia , queridos amigos,

todos os jornais de hoje anunciam a morte de D.Ruth Cardoso.
Me sinto meio órfã de início.Mas, como sempre , começo a pensar.Como em meu mestre Pessoa, em mim pensamento e emoção se misturam inevitavelmente.
Não creio na morte. D.Ruth não morreu .Encantou-se. Raro exemplo, ainda, de mulher inteira, de ser humano íntegro, tem sido inspiração para muitas de minha geração e das seguintes.
Como pode morrer alguém tão firme, decidida, ímpar?Não morreu .Encantou-se.Como Osíris, que um dia cansado de ensinar a seu povo os mistérios do cultivo , encantou-se.Foi pro céu virar a constelação de Orion. A constelação do guerreiro.D.Ruth deve estar lá perto.Ou quem sabe como Macunaíma , herói muito de seu apreço.
Encantou-se D. Ruth e pronto.Virou constelação e de lá das lonjuras celestes continuará a nos encher de orgulho e motivos.
Em homenagem a esta mulher paradigmática, trago a frase do dia.
Beijos confessadamente tristes,
Aninha, fada peregrina

"Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada."

(Fernando Pessoa)






 
 
24/06/2008 - frase do dia
 
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Amados,

quase sempe me despeço de todos desejando um dia feliz e produtivo.Decidi, hoje, fazer um breve comentário a este respeito. O que penso , afinal, ser um dia produtivo? Talvez aquele em que nos colocamos , singelos, entregues, no campo fértil e abundante das idéias.Talvez aquele em que permitimos que nossos sonhos se expressem no que os filósofos nomeiam mundo fenomênico. Não é tão complicado como pode parecer assim de súbito.Quem sabe um pouco de Teoria ajude. Como? É só lembrar que em grego o signo Teoria significa o Ser em contemplação. Ora, contemplação de quê? Do Mistério. Do Inefável.
Quer dizer, mais produz quem mais sonha, quem, irremediavelmente, imagina. Quem , conscientemente, participa da criação.Seja de uma criança, de uma idéia, de um cardápio,de um projeto. Pessoas assim são elos fortes, mesmo que intangíveis, de uma ancestral corrente do bem e do belo.
Por falar nisto, trago-lhes a frase do dia.
A todos um dia feliz e produtivo.Ao menos o que dele resta.
Um beijo fraterno,Aninha, fada peregrina

"Como foi a imaginação que criou o mundo, ela governa-o."
( Charles Baudelaire )

 
 
23/06/2008 - O Arquivo
 
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Queridos,


durante esta semana estarei conduzindo um treinamento pelos domínios da linguagem escrita. Como os participantes serão executivos, escolhi um texto de forte impacto para iniciar a peregrinação por este reino. O texto, O Arquivo, é obra de um de meus grandes mestres ,de quem tive a honra e a felicidade de ser amiga. Foi pelas mãos dele que epla vez vi minhas palavras impressas em jornal que não fosse de escola. Levar seu texto hoje é uma forma de expressar minha gratidão.
A todos um dia feliz e produtivo.
Beijos , Aninha, fada peregrina

O arquivo
Victor Giudice


No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

João transformou-se num arquivo de metal.



 
 
22/06/2008 - Mestre mesmo
 
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Mestre mesmo!

Mestre mesmo é raro.Muito raro.
Eu sou afortunada.Tive alguns.
Entre tantos, marcou-me profundamente um .Especialíssimo.Meu professor de Literatura Brasileira em meus dois primeiros anos de faculdade, no Instituto de Letras , no décimo primeiro andar de minha inesquecível UERJ.
Ivo Barbieri, seu nome.Uma lenda. Sorriso manso no rosto claro, cheio de sardas.Dizia-se que havia lido Machado aos nove anos. Exigentíssimo.Coisa interessante: nunca fazia chamada.A sala sempre cheia e atenta.Levava-nos por meandros e labirintos com segura palavra e fogo no coração escondido, como se contido.
Olhando de tão longe no tempo, posso ver agora que era amoroso conosco. Uma timidez discreta o envolvia sem impedir que nós, pobres mortais, chegássemos perto, convivêssemos.Tomava até chopp com a gente. Muitas sextas, lá ia conosco ao Bar dos Pescadores (Ficava em Vila Isabel. Não sei se ainda existe) comer casquinha de siri, beber e falar com compromisso de livro, filme, poesia. Coisas do espírito.Um Mestre sempre. Meio parecido com Alvo Dumbledore, ensinava sempre, apenas por estar vivo. Sua presença irradiava magia, plácido poder.
Pois bem, a Ivo devo algo que ando tentando pagar a vida todinha.Conto: no primeiro ano da faculdade, eu, do alto de meus muitos pontos no vestibular, primeiro lugar em classificação, etc, etc, achava que sabia muito.
Ao fim do ano, havia uma prova que todos tínhamos que fazer. Era uma prova única. O tema: Romantismo no Brasil.Podíamos levar quantos e quais livros quiséssemos e consultar, copiar, citar. Armada com uma montanha invejável, uma folha de papel almaço, canetas e lápis e, sobretudo, com o que achava ser minha vasta sabedoria, lá fui eu pensando:- esta, eu tiro de letra.
A prova era simples: analisar em diversos níveis um poema de Gonçalves Dias.Coisa de três horas. Escrevi, escrevi, li, folheei e, lá pelas tantas, baixou-me a seguinte questão:- Ora, para que estou eu aqui?Para virar professora desta coisa. Como posso dar aula lendo livro? Ou falo do que sei, do que está dentro de mim, ou isto nunca dará certo. Fechei teatralmente os livros e comecei a escrever o quê, de fato, sabia , como se falasse com hipotéticos alunos.
Minhas amigas desesperaram-se.Sussurravam: - deixa de ser besta, de querer se exibir.Copie como todo mundo. Notei que Mestre Ivo me olhava sorrateiro, matreiro.
Para desespero de minha amigas fiéis ( o são até hoje) , continuei.
Bom, quando as provas retornaram, o impossível aconteceu: eu tinha ficado em companhia dos alunos que eu desprezava. Turma comum, chamada por minha roda de turma perfumaria , ralezal e demais palavras nada lisonjeiras.
Como podia? Indecifrável mistério. As meninas amigas espinafraram-me: -Veja o que dá querer ser diferente; agora está aí, ferrada.Uma implacável segunda época esperava-me.Sem contar que meu orgulho de boa aluna estava muito combalido.
Bom, no dia marcado, já em fevereiro, lá fui eu. Livros, livros, papel almaço, lápis, canetas e amigas. Foram as três, solidárias, me dar apoio.Uma por todas... éramos assim.Ainda somos.
O texto desta vez era de meu amado Castro Alves.Em minha ânsia, comecei, prometendo a mim mesma ser boazinha, exemplar , fazer tudo o que seu mestre mandar, etc, etc, entrar no rebanho enfim.
Mas quem disse... lá pelas tantas, enchi-me de tanta boamocisse .Fechei os livros, ainda mais dramática, encarei o Mestre que me fitava por trás dos óculos, parecendo divertir-se, pensei: - dane-se .E fui à luta.Escrevi duas folhas inteirinhas.Tudo tirado de minha cabeça cheia do que eu sabia e de meu amor pela poesia.
Arrisquei um olhar para a porta da sala. As mosqueteiras quase arrancavam o cabelo.Se pudessem, matavam-me, para não fazer besteira com o que pesavam ser mais um surto de exibicionismo. Hoje, sei que o nome era coerência.
Bom, acabei. A mão doía de tanto escrever, mas o coração estava leve, feliz, seguro.Tinha feito o que acreditava ser correto.
Entreguei a prova.O Mestre Ivo nem leu. Escreveu um vistoso dez bem encima.Cautelosa, esperei que ele lançasse a nota, guardei minhas folhinhas e perguntei: - Mestre, agora me explique.Você nem leu.Eu fiz de minha cabeça como da outra ocasião.O que mudou? Não que eu reclame, mas, me explique.
Ele, sorriu, tirou os óculos, fitou-me com olhar profundo,imemorial:- Eu sei o quanto de literatura você sabe. Nunca foi isto que esteve em jogo.Estava em jogo sua coragem. Tivesse você temido e usado os livros, desacreditando do que está em você e teria me decepcionado. Apostei em você. Queria ver até onde ia você ia, até onde teria coragem.Ganhamos.
Lembre-se, menina: ouse.
Decerto que o grande Mestre, mais tarde Magnífico Reitor da UERJ, Secretário de Estado, Curador de Eventos do CCBB não se lembra do fato.Para mim é indelével.Suas aulas estão gravadas até hoje muito prazerosamente em minha memória. Mas, a grande lição, recebia- a naquela noite.Minha alma tem me guiado de acordo com ela. Tenho vivido cada dia tentando não decepcionar meu Mestre. Nunca pude dizer-lhe isto.Talvez jamais o consiga.Mas vivo assim e sou-lhe irremediavelmente grata.
-Ouse, menina, ouse .Quantas vezes tenho repetido para mim mesma esta frase? Nunca me arrependi.
Como um verdadeiro Mestre, ensinou-me a coragem meu amado Mestre Ivo Barbieri.


 
 
20/06/2008 - links de filmes
 
 

Queridos, um amigo querido me mandou de presente links de uns filmes muito, muito interessantes.
Partilho com vocês.Beijos,Aninha



Ponto de Mutação
http://br.youtube.com/watch?v=USOeu0_q4J8&feature=related

Janela da Alma
http://br.youtube.com/watch?v=ly8NORlsKt8&NR=1

Teia da Vida
http://br.youtube.com/watch?v=xgJ154IS6T4&feature=related

GOTA A GOTA
http://br.youtube.com/watch?v=H30EqLWiPiM&feature=related

Tempos Pós-modernos Rumo a 2012 (portuguese version)
http://br.youtube.com/watch?v=tM9as4G4DzQ&feature=related


 
 
20/06/2008 - frase do dia
 
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Amados,
bom dia . O sol retornou embora o frio se mantenha substantivo. Embalada pela suave luz do inverno , reflito sobre um assunto que fascina desde sempre: o sonho.Sua função; seu papel. Que coisa é o sonho?É o sonhador um ser tolinho ou ser de refinado viver?É o sonhador o ser que perde-se em labirintos ou o ser que vislumbra?
Socorro-me das palavras de um sonhador emérito.Mestre Pessoa nos traz ainda hoje a frase do dia. E o faz agorinha , pela manhã com todos os gatos nítidos nas pelagens.
A todos um idílico final de semana.
Muitos beijos a todos, Aninha, fada peregrina


" Viver do sonho e para o sonho, desmanchando o Universo e recompondo-o, distraidamente conforme mais apraza ao nosso momento de sonhar. ... As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais".

 
 
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